sexta-feira, 8 de julho de 2011

Toque.

Não odeio a sensibilidade mas esta parece odiar-me.
Lágrimas não vejo escorrerem nem perto do meu nariz e só as minhas costas vêem as lágrimas que escorrem bem perto do teu.
Jura as tuas mãos perto das minhas e prometo jurar este fragmento de corpo perto do teu.
Odeia-me. Faz-me sentir o desprezo dos teus olhos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Homofobia.

Trocavam cartas que os faziam chorar.
A ele e a ele.
Trocavam cartas que os faziam chorar
Com amor que fazia chorar.

Estavam sempre longe as pontas dos dedos,
Fosse esse o maior dos medos.
Sentiam hoje,
morriam amanhã.

Poucas cartas que os fizeram chorar
Até ao dia em que as fui apanhar,
E com as próprias mãos que hoje não tenho,
Finalmente os consegui matar.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Perspectiva.

Só queriamos o copo de vinho a balançar pelos diferentes dedos e a entornar pelas diferentes direcções. O vinho quente era fresco.
Não eram difíceis as palavras que proferiamos à vezes não para nós não para ti e para mim mas para mim e para mim. 
Hoje queria apenas as tuas pernas a brincar com as minhas e as tuas pernas a falarem e eu calado. E tu calada. Não nos levamos a sério e gostamos disso. Não nos levamos a sério.
Levo comigo o cheiro do teu pescoço e contigo não levas nada.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Trocas.

Retirou duas partes do seu próprio coração. Retirou o lado esquerdo e retirou o lado direito.
Colocou as duas partes do seu coração no cão morto atropelado na berma da estrada.
Depois morreu.
O cão desapareceu da beira da estrada.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Censura.

Sentaram-se os dois.
Conversaram sobre tudo.
Com a alma nao se fala sobre mulheres.
Conversaram sobre nada.

domingo, 22 de maio de 2011

Discretos Comedores de Tempo.

Cada degrau trincava-lhe um pouco do pé. Ao início trincavam apenas. Depois mordiam. Depois arrancavam. Cada degrau trincava e mordia e arrancava um pouco do pé. Mas continuou a subir. Foram ficando as unhas amarelecidas engolidas digeridas. Foram ficando os dedos sugados a custo. Ficou a planta e a palma. E ficou o calcanhar. Na boca dos degraus ficaram unhas e dedos e planta e palma e calcanhar. No topo ficaram duas pernas sem pés. As pernas iguais mas sem pés.

Os degraus tinham ainda fome.

Fincou as palmas das mãos no solo e aguentou todo o peso do seu corpo nos braços franzinos e desta vez desceu e desta vez desceu com as mãos.

domingo, 15 de maio de 2011

Atrás do Último Fica o Pior.

O diabo observava o louco que observava a gaja que observava o gajo que observava a mulher que observava outro gajo que observava o barman que observava os copos que observavam a cerveja que observava a lingua que observava o esófago que observava o estômago que observava o intestino que observava o cu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Vai Por Favor.

E se mandássemos o mundo à merda? Baixinho para nem ele nem ninguém ouvir. Mas mandavamo-lo à merda. Quando ele viesse. Como sempre com aquele aspecto desfeito. E pobre. E desfeito. Com crise. E se mandássemos o mundo à merda. Se gritássemos. Para nós e para todos ouvirem. Se lhe agarrássemos naquelas orelhas sujas de mundo e lhe gritássemos vai à merda. Ele iria? E se mandássemos o mundo a merda? Aquele mundo que vira sorrisos do avesso. Que lhes corta a etiqueta. E os substitui por não sorrisos. E se hoje mandássemos o mundo a merda? E se eu e tu juntássemos as mãos. E juntássemos as bocas. E mandássemos o mundo a merda. Quando ele nos agarra com força pelo colarinhos, e sacode o mínimo de bem-estar que temos. Aquele que tinhamos guardado no pote das asneiras para o mundo não descobrir. Mas o cabrão descobre-o sempre. E pisa-o. Esmaga-o. E acabou. E se mandássemos o mundo à merda? E se lhe escrevêssemos uma carta? 

-Querido mundo, vai á...

Se ele amanhã vier. Com aquele aspecto esfarrapado. Desolado. Se ele amanhã vier. Desmotivador. Sem esperança. Se ele amanhã vier...

E se mandássemos o mundo à merda?